Modernismo e tradicionismo na Bahia

O cais do porto da Bahia, com os prédios na beira do mar, antes das demolições que visavam a chamada "modernização" da cidade. Na foto abaixo, o Pelourinho, onde se vê a Igreja do Rosário dos Pretos.


Agradeço à organização do XXII Congresso de Literatura Portuguesa o convite para integrar esta mesa plenária sobre a Memória do Ensino e da Pesquisa da Literatura Portuguesa no Brasil. Para minha surpresa e honrosa alegria, aqui estão presentes, como conferencistas, dois grandes mestres da atualidade que dão forma e relevo à memória mais viva dos estudos portugueses no Brasil: a professora Cleonice Berardinelli e o professor Massaud Moisés.

Peço licença a ambos para iniciar a apresentação do tema que me foi proposto e que pode ser resumido no título “Hélio Simões: do poeta modernista ao fomentador das relações luso-brasileiras”. Os dois mestres aqui presentes conheceram muito de perto o homenageado neste texto. Os três viveram os momentos de fundação dos estudos portugueses em nosso país.

Permitam-me então repetir, professora Cleonice, professor Massaud, coisas que ambos conhecem há muito tempo.

A vida acadêmica de Hélio Simões ganha definição em 1932, quando aos 22 anos, é diplomado pela Faculdade de Medicina da Bahia, a mesma escola de um outro seu colega e companheiro de geração, que também trocou a medicina pela literatura, Afrânio Coutinho.

Médico formado, o dr. Hélio, como era chamado, submeteu-se a concurso de Livre Docente. Aprovado, assume as funções de Assistente Efetivo e Chefe de Clínica da Faculdade de Medicina da Bahia.

Em 1942 era criada a Faculdade de Filosofia da Bahia. Não existiam ainda os cursos de Letras, de Ciências Humanas ou de Filosofia; e a Faculdade de Medicina era o grande centro catalisador do humanismo. Ali não se aprendia apenas a curar os males do corpo. No convívio diário com professores e colegas se aprendia sobretudo a bem formar o espírito. Vem do século XIX a tradição que a Bahia formava escritores-médicos e o Recife formava escritores-juristas. E esta tradição afortunada continua pelas primeiras décadas do século XX.

Precisamente aí, em 1942, o poeta Hélio Simões, que ocupava interinamente a cátedra de Neurologia, abandona o exercício da clínica na área da saúde mental, e transfere-se para a Faculdade de Filosofia da recém criada Universidade. A esta altura, como homem de sensibilidade artística e estudioso das ciências da cultura, era também professor da Escola de Belas Artes.

Assumindo a cadeira de Literatura Portuguesa, Hélio Simões procurou completar sua nova formação acadêmica em viagens de estudos a Portugal, à França e a outros países. Entre os portugueses, relacionou-se ou, em alguns casos, privou da amizade de intelectuais como Teixeira de Pascoaes, Hernani Cidade, Aquilino Ribeiro, Vitorino Nemésio e quase uma centena de outros escritores.

Foi através desses contatos que ele propiciou a vinda para a Universidade da Bahia de Adolfo Casais Monteiro e de Eduardo Lourenço, o primeiro para o curso de Letras, o segundo para o de Filosofia. Com humildade, Hélio Simões justificava a sua constante busca de intelectuais portugueses para atuarem na Bahia por uma motivação pessoal, ou como uma forma de aprender com os seus convidados. Assim é que propiciou a Hernani Cidade trabalhar com a defesa do Padre Antonio Vieira perante a demoníaca "Santa Inquisição" e a intelectuais de Geração de Presença a escreverem sobre o ainda pouco conhecido Fernando Pessoa. Vitorino Nemésio aqui publicou o livro Conhecimento de Poesia. Eduardo Lourenço, então professor de filosofia, iniciou a frutífera ponte ligando sua investigação à literatura.

O papel singular desempenhado por Hélio Simões tanto foi reconhecido pelos portugueses, na forma da amizade e da admiração, quanto nas distinções concedidas. Oficial da Ordem Militar de Cristo e, posteriormente, Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique. Ainda em terras lusitanas, tornou-se membro da Academia de Ciências de Lisboa, do Instituto de Coimbra, do Instituto de Geografia de Lisboa e da Academia Internacional de Cultura Portuguesa.

No nosso país, a Academia Brasileira de Letras concedeu-lhe a Medalha Machado de Assis, mais alta homenagem dessa confraria, por indicação do escritor Jorge Amado, seu antigo rival nos movimentos literários baianos dos fins da década de 20. Uma sólida relação uniu Jorge Amado a Hélio Simões: inicialmente a cordial rivalidade entre os grupos modernos a que pertenceram. Posteriormente, o estreitamento do contato, quando o neurologista Hélio Simões cuidou de Matilde, a primeira esposa do romancista.

Sou testemunha do apreço de Jorge Amado a Hélio Simões. Nos anos 80, o romancista deu-me a incumbência de preparar uma edição da poesia de Hélio Simões, para a qual tomou todas as providências junto a sua editora, a Record, e ao Instituto Nacional do Livro. Passados alguns meses, sem que o trabalho tenha ficado pronto, o escritor Herberto Sales, presidente do Instituto, solicitou o encaminhamento do livro que nunca foi organizado, por modéstia ou desambição do próprio autor. Quando insistíamos com doutor Hélio para que ele franqueasse as cópias dos novos textos que seriam reunidos ao livro dos anos 20, O mar e outros poemas, ele – invariavelmente – prometia para um dia qualquer, desde que mais adiante.

Assim era o antigo professor de neurologia que se fez um dos pioneiros dos estudos portugueses no Brasil. Mais de uma vez ele redarguia que os seus textos, quer fossem de criação ou de análise, não tinham especial importância.

Ainda recordo de uma conferência lida por ele, no Gabinete Português de Leitura, coisa rara, uma vez que as suas intervenções eram quase sempre orais e sustentadas no mais brilhante improviso. Suponho que esta conferência foi escrita, porque se tratava de um diálogo com as tendências ou os métodos da época. Em pleno desvario estruturalista, Hélio Simões valeu-se de Roland Barthes e de alguns outros autores postos em frenética evidência, para fazer uma leitura mais próxima da velha tradição interpretativa francesa, sem excluir as propostas mais consistentes do novo método estrutural. Este empenho conciliador foi uma característica que Hélio Simões trouxe dos seus tempos de juventude e que marcou a sua participação no movimento modernista baiano, como veremos mais adiante.

Dias depois da conferência, escrita numa linguagem fulgurante e fundada em uma leitura de impressionante atualidade, pedimos o texto para publicação e ele simplesmente respondeu: “Vocês levam estas coisas muito a sério.” E o texto nunca foi publicado.

Voltando à formação acadêmica de Hélio Simões e à sua posterior opção pela literatura Portuguesa, surge então uma pergunta: com que credenciais o então médico, professor livre docente e catedrático interino de clínica neurológica assumiu a primeira cátedra de Literatura Portuguesa da Universidade da Bahia e uma das primeiras do Brasil?

Com as credenciais de poeta modernista da geração da revista Arco & Flexa, brilhante geração reunida em torno da revista do mesmo nome. E com as credenciais adquiridas em muitas outras publicações surgidas a partir daí, com as quais colaborou. As credenciais da sensibilidade e do mistério da poesia.


A TOPADA DO MODERNISMO

Em 1928, dois grupos ou duas revistas de tendências modernas e dessemelhantes escandalizaram o conservadorismo baiano de formação parnasiano-simbolista e retardatária ressurreição romântica. Eram: o grupo de Arco & Flexa, inicialmente formado por Hélio Simões, Pinto de Aguiar, Carvalho Filho e Eurico Alves, sob a liderança do também médico e crítico literário Carlos Chiacchio; e, do outro lado, o grupo da Academia dos Rebeldes, integrado por Jorge Amado e outros jovens. Este grupo teve como trincheira a revista Samba, graças à liderança de Pinheiro Viegas, mentor tanto da revista quanto da chamada Academia dos Rebeldes.

Observe-se que os dois grupos de jovens que se propunham a construir a modernidade literária foram buscar apoio em dois velhos intelectuais, de formação finissecular já consolidada, o que vejo como uma conseqüência da natureza esteticamente prudente de ambos. Todos eram jovens, modernos, e... bastante cautelosos. E assim a Bahia se inscreveu, de forma ambígua e, talvez por isso mesmo, pouco estudada, no panorama modernista brasileiro. Para a historiografia literária brasileira, a topada que o modernismo levou na Bahia pesou mais do que os aspectos peculiares da modernidade resultante dos conflitos e contradições locais e nordestinas.

Observe-se, ainda. Justificando a importância do seu grupo para a moderna literatura, Jorge Amado proclama:

“Faço o balanço dos livros publicados pelos Rebeldes, por cada um de nós. A Obra Poética e Iararana, de Sosígenes Costa: sua poesia, nossa glória e nosso orgulho; a obra monumental de Édison Carneiro, pioneiro dos estudos sobre o negro e o folclore, etnólogo eminente, crítico literário, o grande Édison; os Sonetos do Malquerer e os Sonetos do Bem-querer, de Alves Ribeiro, jovem guru que traçou nossos caminhos; os dois livros de contos de Dias da Costa, Canção do Beco, Mirante dos Aflitos; os dois romances de Clóvis Amorim, O Alambique e Massapê; o romance de João Cordeiro devia chamar-se Boca suja, o editor Calvino Filho mudou-lhe o título para Corja; as coletâneas de poemas de Aydano do Couto Ferraz; a de sonetos de Da Costa Andrade; os volumes de Walter da Silveira sobre cinema — some-se com meus livros, tire-se os nove fora, o saldo, creio, é positivo.” (AMADO, 1992, p. 85)

Ora, na território da poesia, tanto a obra simbolista de Sosígenes Costa, marcada pelos exuberantes sonetos pavônicos, quanto os sonetos de Alves Ribeiro e de Da Costa Andrade são computados por Amado como saldo credor desse grupo moderno.

Convém lembrar, então, um velho político da nossa terra, o governador Otávio Mangabeira, que costumava dizer: “Pense em um absurdo.” E logo completava: “Na Bahia já aconteceu.”

Assim, também, foi o nosso modernismo.

A propósito da Academia dos Rebeldes, Hélio Simões, em entrevista à pesquisadora Ívia Alves, afirmou: “Ao mesmo tempo que se publicava Arco & Flexa, saía também a revista Samba. Pode ser considerada uma revista reacionária do ponto de vista literário, ainda publicando sonetos. No entanto, o grupo tinha uma linha política.” (ALVES, 1978, p. 23) – Observava, com propriedade, Hélio Simões.

Diferentes entre si, como se vê nas palavras de um dos seus formadores, os dois grupos modernistas baianos tinham um ponto em comum: a discordância com o modernismo paulista. Ambos os grupos baianos estavam mais próximos do que se fazia em Pernambuco, antecedendo o trabalho de Gilberto Freyre. Sobre o Congresso Regionalista do Recife, Hélio Simões afirmou que, apesar de ter conhecimento das suas propostas, não leu o manifesto de Gilberto Freyre. Como não poderia ter lido porque hoje sabemos que o Manifesto Regionalista não foi escrito nos anos 20, mas somente quando da sua publicação, nos anos 50. O texto conhecido retoma idéias presentes nas intervenções performáticas de Gilberto Freyre, na década 20. (Cf. DIMAS, 2004)

Os poetas de Arco & Flexa tinham contato com o grupo do Recife que editava a revista Cidade. E ainda com os grupos de Festa, no Rio de Janeiro, e de Verde, em Cataguases. Outras afinidades eletivas foram: Jorge de Lima (como Hélio Simões, também médico), que freqüentemente vinha à Bahia a serviço do Lloyd; e, no Ceará, o grupo baiano mantinha contato com a jovem Rachel de Queiroz.

Enquanto o modernismo da Semana de 22 colocava o país em sintonia com a modernidade européia, o Nordeste passava por uma busca de libertação dos modelos europeus, em favor de uma identidade telúrica. Como o conceito de regional se confundia com o pensamento político conservador, alguns intelectuais tentavam contornar esta inconveniência, sustentando sua proposta de modernidade com a de pertencimento ou de identidade. Gilberto Freyre, na contramão do ideário nazista que dominaria a Europa, deslocava o foco da questão racial para a cultural. Convém lembrar que esta busca de identidade, distante da eugenia racial e sustentada em culturas plurais era uma tendência dos anos 20 em outros países da América Latina. A vertente moderna a partir do regional só ganhou dimensões nacionais a partir do regionalismo de 30, nascido no contexto modernista do Nordeste. O mesmo Jorge Amado, que rejeitava as propostas da Semana de 22, chegou à realização estética moderna, capaz de traduzir o seu contexto cultural, com o romance que caracterizou o regionalismo de 30.

Convém acrescentar que a idéia de modernidade artística comprometida com as novas invenções industriais, o fervilhar e a velocidade feérica das grandes cidades, era uma idéia européia que seduzia o espírito industrial paulista, mas não era uma constante no pensamento baiano e do nordeste. Poetas modernos marcados pela força da terra viram algumas marcas dos novos tempos como forma de empobrecimento cultural, ou como aniquilamento de uma visão do paraíso.

Eurico Alves, do grupo Arco & Flexa, na “Elegia a Manuel Bandeira”, convida o poeta a ir a Feira de Santana, onde:
“Os bois escavam o chão para sentir o aroma da terra.”
E Bandeira responde com outro poema, dizendo:
“Não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça.”
(BANDEIRA, 2005, p. 85.

Nos anos 30, "um episódio chamou a atenção para o nome de Eurico Alves: o famoso diálogo poético com Manuel Bandeira", conforme observa Juraci Dórea. "Sem o seu conhecimento, Carvalho Filho datilografou os versos e enviou para Bandeira, que respondeu com outro poema. «Eu estava operado no hospital, quando apareceram Carvalho e Godofredo Filho com a Escusa», registrou Eurico Alves, em carta para sua filha Maria Eugenia Boaventura, datada de 1º de janeiro de 1969." (DÓREA, 2009, p. 129)

Estudando a produção de Eurico Alves na revista quinzenal A Luva, publicada em Salvador, de 1925 a 1932, Monalisa Ferreira toca na questão da convivência harmoniosa entre conservadores e vanguardistas nas páginas dessa publicação:

"Nestas, percebemos um contraponto: de um lado, traços de escritas com mudanças apenas aparentes, como Moema, de Eugênio Gomes, que, embora fosse considerada pelas críticas baiana e carioca como a primeira obra modernista publicada no Estado da Bahia, não apresentava inovações; de outro lado, textos de criação com uma estética visivelmente inventiva, como os poemas e contos de Eurico Alves." (FERREIRA, 2009, p. 172-173)

Mesmo não endossando a visão da estudiosa, quando privilegia a escrita de Eurico Alves, de modo viesado em favor do escritor por ela eleito, não se pode deixar de considerar a diversidade de tendências apontada no seu bem fundamentado artigo.

Mas o que parece um abismo entre o modernismo da Bahia e o de São Paulo pode se restringir ao impacto causado pelas idéias da Semana de 22. Como o progresso de São Paulo trouxe, primeiro, a inquietação, lá o modernismo logo conheceu o deslumbramento pelas novidades vindas de fora; depois trocadas pelo mergulho dos seus escritores nas raízes nacionais, especialmente a partir de 1928.

Voltando à Bahia, o crítico Eugênio Gomes, praticante de poemas de amor surgidos na revista Arco & Flexa, e considerado como autor do primeiro livro modernista editado na Bahia, (CHIACCHIO, 1928) transfere esta primazia a Godofredo Filho. Com efeito, em 1925, Carlos Chiacchio escreveu na sua coluna “Homens e Obras” um comentário saudando a aparição dos poemas modernos de Godofredo Filho (CHIACCHIO, 1928); e em 1928, mesmo ano da publicação na Bahia do livro Moema, de Eugênio Gomes, Godofredo Filho publica no Rio de Janeiro, pela editora Pongetti, o volume Samba Verde. (SEIXAS, 1975, p. 11)

Embora saudado e recebido calorosamente, tanto em São Paulo quanto no Rio, por Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Jayme Ovalle, Augusto Frederico Schmidt, Álvaro Moreyra e outros, Godofredo Filho, inexplicavelmente, recolheu o seu livro.

Na Bahia, o modernismo era caracterizado pelo grupo Arco & Flexa como “tradicionismo dinâmico”, movimento que se propunha a inovar a partir do respeito à tradição. Sobre esta expressão que vai aparecer e dar título ao artigo que serve de manifesto à revista, assinado por Carlos Chiacchio, Hélio Simões esclarece:

“Na Bahia, nós tínhamos fundamentos que não podíamos abandonar de todo. Daí o “Tradicionismo Dinâmico”, porque nós queríamos ir para adiante, mas sem renegar o passado. E não era fazendo tábula rasa como a revista Antropofagia, de Oswald de Andrade, porque, na verdade, nesse primeiro momento é Oswald que tem maior realce, Mário de Andrade apareceu posteriormente.

E prossegue Hélio Simões:

“Eles queriam fazer tábula rasa de tudo. Então inventamos esta expressão de “tradicionismo dinâmico” que era tradição, sim, porque respeitávamos as tradições baianas, mas não ficávamos presos a elas, queríamos sob a base dessa tradição construir o futuro, uma coisa nova, porque também tínhamos a nossa idéia nacionalista.” (Apud ALVES, 1978, p. 119-120)

Como se verá, adiante, o termo “tradicionismo dinâmico” não foi inventado para o grupo, mas tomado de empréstimo ao poeta catalão Gabriel Alomar.

Nesse artigo de abertura da revista Arco & Flexa, Chiacchio esclarece, em tom de manifesto, que toda cultura se vale da tradição para encontrar novos caminhos, se vale do regional para chegar ao universal – “sem perder o contato com a terra”. (CHIACCHIO, 1928, p. 4) Ao afirmar que a cultura universalista refina a sensibilidade local, ele rejeita o apego ao que chama de tradições estáticas, propondo: “Tradições dinâmicas, as tendências modernistas, as únicas dignas de fé.” (Ibidem, p. 6)

"Quanto ao livro de poemas Moema, de Eugênio Gomes, considerado ainda atado aos modelos tradicionais, Hélio Simões sublinha o fato de ter sido Eugênio quem “conseguiu dar a forma ideal do ‘tradicionismo dinâmico’. Foi seu livro que impulsionou o grupo para a produção e publicação de uma revista dentro das idéias de um ‘tradicionismo dinâmico’.” (Apud ALVES, 1978, p. 123)

Na verdade, o pensamento desses jovens conciliadores encontrava eco nas propostas de Carlos Chiacchio, influenciadas pelo poeta e ensaísta catalão Gabriel Alomar Villalonga (1873-1941). Em palestra proferida em 1904, com título “Futurismo”, Alomar dizia que as sociedades registram dois elementos ou duas manifestações capitais “na aparência, de conciliação impossível e paradoxal. Eis estes dois mundos, que com a sua convivência tecem eternamente a História: um deles, com o olhar para trás, alimenta-se da tradição”. (VILLALONGA, 1993, p. 13)

Este elo entre tradição e ruptura não passaria desapercebido a Chiacchio que na série de artigos intitulados “Modernistas e ultra-modernistas”, publicados no jornal A Tarde, de janeiro a março de 1928, e depois reunidos em livro, intitulou um dos textos: “Gabriel Alomar, o criador do verdadeiro futurismo”, em evidente referência a Marinetti que, na sua visita à Bahia, deixou como herança a designação dos ônibus que começavam a chegar à cidade, por coincidência, quando os jornais repercutiam as suas idéias. Se o futurismo de Marinetti não encontrou adeptos entre os modernos escritores baianos, em contrapartida, os ônibus de frente alongada, novidade chegada quando da visita do italiano, receberam seu nome. Até os anos 70 não era comum os baianos viajarem de ônibus. A gente viajava mesmo era de marinete.

E para terminar: Segundo Hélio Simões, o grupo da revista Arco & Flexa, ao procurar Chiacchio, discutiu o objetivo de conciliar a tradição com a inovação, o que, mesmo assim, não evitou que os seus participantes fossem vistos como loucos e inconseqüentes.

Assim, convém relembrar Gregório de Matos: “Isto sois, minha Bahia, isto passa em vosso burgo.”


REFERÊNCIAS

ALVES, Ivia: Arco & Flexa. Contribuição para o estudo do modernismo. Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978.

AMADO, Jorge: Navegação de cabotagem; apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei. Rio de Janeiro, Record, 1992.

ARCO & FLEXA: edição fac-similar, revista literária de 1928/1929, Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. (n° 1, 66 p.; nº 2/3, 70 p.; nº 4/5, 90 p.)

BANDEIRA, Manuel: Meus poemas preferidos. Rio de Janeiro, Ediouro, 2005, p. 85.

CHIACCHIO, Carlos: Poesia Nova. A Tarde, Salvador, 10 jan. 1925. A nota não vinha assinada, mas como figurava na seção mantida nesse jornal pelo conceituado crítico, a autoria não oferece dúvida.

CHIACCHIO, Carlos: O nosso primeiro livro modernista. A Luva, 5 out. 1928, n. 82.

CHIACCHIO, Carlos: Tradicionismo dinâmico. Arco & Flexa. Mensário de cultura moderna, n. 1, Salvador, nov. 1928.

CHIACCHIO, Carlos: Modernistas e ultra-modernistas. [II] Gabriel Alomar, o criador do verdadeiro futurismo. A Tarde, Salvador, 14 fev. 1928.

DÓREA, Juraci: Diálogo entre Eurico Alves e Manuel Bandeira. In Légua & meia. Revista de literatura e diversidade cultural. Feira de Santana, UEFS, 2009.

DIMAS, Antonio: Um manifesto guloso. In Légua & meia. Revista de literatura e diversidade cultural. Feira de Santana, UEFS, 2004.

FERREIRA, Monalisa Valente: Os dedos de Eurico Alves vestem A Luva (A revista, o modernismo baiano e o poeta dissonante). In BOAVENTURA, Eurico Alves: Cipós verdes. Feira de Santana, UEFS, 2009, p. 171-195.

SEIXAS, Cid. Godofredo Filho: 50 anos de presença literária e do modernismo na Bahia. Salvador, Tribuna da Bahia, 23 mai. 1975.

SEIXAS, Cid: Triste Bahia, oh! Quão dessemelhante. Notas sobre a literatura na Bahia. Salvador, EGBA / Secretaria da Cultura e Turismo, 1996. (Coleção As Letras da Bahia)

SEIXAS, Cid: Sosígenes Costa: Epopéia cabocla do modernismo na Bahia. In PÓLVORA, Hélio (org.): A Sosígenes, com afeto. Salvador, Edições Cidade da Bahia, 2001, p. 75-84.

VILLALONGA, Gabriel Alomar: Futurismo. In Héctor Olea: O futurismo catalão antes do futurismo. São Paulo, Edusp / Giordano, 1993.

APÊNDICE

Ver os poemas citados clicando aqui para acessar o apêndice a este artigo, intitulado "Manuel Bandeira / Eurico Alves".

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"Modernismo e tradicionismo na Bahia". Trabalho apresentado ao XXII Congresso Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa, realizado na Universidade Federal da Bahia, de 13 a 18 de setembro de 2009, com o título “Hélio Simões: do poeta modernista ao fomentador das relações luso-brasileiras”.