O tom épico do modernismo na Bahia

Ao Prof. Afrânio Coutinho, que discutiu a leitura deste texto no
I Seminário sobre Simbolismo e Modernismo na Bahia.

A poesia de Sosígenes Costa permaneceu até pouco tempo desconhecida do público brasileiro. O poeta teve o mesmo destino literário de Kilkerry, também baiano, e do maranhense Sousândrade, cujo inventário poético somente foi avaliado postumamente — ambos revelados através de revisões críticas devidas aos irmãos Campos. Coube a José Paulo Paes a tarefa de reunir os originais manuscritos e as publicações esparsas de Sosígenes Costa e editar a sua obra, (COSTA, 1978) tendo antes realizado um estudo crítico destinado a repor o texto do poeta grapiúna na mira dos estudiosos. (PAES, 1977)

Em seguida, o mesmo José Paulo Paes nos revela, pela primeira vez, na íntegra, um longo poema narrativo, incluído parcialmente na Obra poética, ao editar o volume Iararana. (COSTA, 1979) Tanto a fixação do texto quanto o ensaio introdutório de sua autoria colocam a literatura brasileira, mais uma vez, como devedora ao empenho e inteligência do autor de Meia Palavra.

Escrito por volta de 1933, Iararana documenta os resultados do contato de Sosígenes Costa com as idéias estéticas que constituíram a espinha dorsal da revolução modernista, iniciada em 1922. Mas, ao mesmo tempo, marca os pontos de diferenciação entre o seu programa e o do grupo paulista, numa frutífera e personalíssima independência (apesar das concessões às novidades da Semana). Iararana é a grande epopéia do modernismo grapiúna, (1) contando a história da raça brasileira a partir da imposição dos valores civilizatórios greco-romanos às culturas nativas do país.

O texto de Sosígenes revela a compreensão de que à arte moderna cabe realizar a tarefa – que, aliás, já foi proposta pelo romantismo – de digerir os conceitos do mundo clássico, depois de destruí-los e devorá-los, antropofagicamente. A proposta cultural da nossa Antropofagia não é uma simples formulação teórica do manifesto oswaldiano, mas a tradução de uma prática elaborada pelo processo criador dos escritores brasileiros; ou de qualquer escritor comprometido com a modernidade.

A região onde o poeta nasceu e viveu quase toda a sua vida (sul da Bahia) é a mesma em que a esquadra de Cabral aportou em 1500, trazendo para cá os mitos, misé­rias, valores e vícios da Europa. Iararana é a odisséia ca­bocla, que conta a origem da cultura do cacau, usada como metonímia da cultura brasileira. O cenário da sua gesta é o mesmo do descobrimento do Brasil; o herói de al­guns dos quinze cantos do poema é Tupã-Cavalo, nome com o qual os caboclos da terra batizaram o centauro que atravessou o mar Atlântico e se aden­trou pelas águas míti­cas do rio Jequitinhonha. Um centauro que fugiu do Olimpo para uma pontinha da Europa, no dizer do poeta, que representa a tra­jetó­ria dos mitos e da civilização da velha Grécia, passando por Portugal, até chegar ao Brasil.

A violência com que o centauro se impõe aos índi­os do lugar simboliza no poema a destruição da cultura primitiva das terras de Pindorama, diante da força e do poder dos invasores, que se apresenta­ram, perante os sé­culos, como descobridores. O centauro "fugido da Oro­pa" violenta a Mãe-D'á­gua, a Iara dos nativos cabo­clos, ge­rando assim a raça mestiça, simbo­lizada por Iara­rana — do tupi, ig, «água»; iara, «senhor» ou «se­nhora»; e rana, sufixo que significa «parecido com», «fal­so»; «falsa iara», portanto.

Não se pode tomar a presença de um mito da cul­tura helênica no poema de Sosígenes Costa — o centauro aculturado sob a denominação de Tupã-Cavalo — como uma mera alusão erudita, ao gosto dos be­letristas de on­tem e sempre. Antes de reve­renciar a tra­dição clássica ma­caqueada pelas litera­turas modernas, o autor de Iararana promove a sua desmistificação, do mesmo modo como o Dom Quixote, de Cervantes, desmistificou a novela de ca­valaria e a secular institui­ção cavalaria, através da sua cari­catura. A diferença fundamental é que Dom Quixote pas­sou à história como o típico per­sonagem de cavalaria, mesmo sendo o anti-herói, sem os poderes prenunciado­res do super-homem que esta narrativa, medieval por ex­celência, pre­para para eclodir nas histórias em quadrinhos do século XX.

Embora sustentada em mitos que o moder­nismo de 22 procurou exorcizar, a gesta grapiuna não deixa de ser um texto modernista. Os mitos helênicos são prota­gonistas imponentes mas, final­mente, vencidos pelos mi­tos da gente cabocla, que constituem o novo elenco de divinda­des e figuras que habitam o poema.

Tupã-Cavalo, o centauro vindo de outras ter­ras para assustar, dominar e, conseqüentemente, escravizar os nati­vos encarna a figura coletiva do conquistador e colo­niza­dor ibérico; mais interessado em explorar as riquezas nativas do que colonizar, no sentido de construir uma nova cultura na terra dominada.

Depois que vence e toma o que pertencia aos venci­dos, ele retorna ao seu país, como no canto XIII de Iara­rana:

“E quando na Oropa se soube
que estava de volta o cavalo-do-mar,
os bichos da Oropa que enxotaram aquele cava­lo
do lugar mais bonito de lá,
disseram assim:

— Olhem, menino, voltou do país das araras
o cavalo-do-mar.
Está queimado que nem salgo fugido
mas voltou com dinheiro.

— Oé! Então vamos convidá-lo
pra comer manjar do céu.”

Tupã-Cavalo, ao mesmo tempo que repre­senta o conquistador, pode incorporar na sua carga semân­tica a trajetória de todo o emigrante — expulso das suas terras pelas circunstâncias da sociedade — que, ao re­tornar, en­dinheirado, é recebido como filho pródigo. Os versos mágicos e de simplicidade primitiva de Iararana reme­tem, quase sempre, a múltiplos referen­tes, ora assemelha­dos, ora intei­ramente contra­ditórios, numa evidente lição da na­tureza polissêmica do texto poético.

Significando como um todo a história da gente brasileira, os versos de Iararana também pretendem si­gnificar desde a postura ideológica do autor até cada um dos fatos históricos que constituí­ram a fisionomia da nossa cultura.

José Paulo Paes, no seu estudo crítico intro­du­tó­rio, embora revele uma compreensão pene­trante e escla­rece­dora do poema, ao tentar avaliar a importância do texto, no quadro da literatura brasi­leira, é demasia­damen­te seve­ro com o material da sua investigação, atribuindo um cará­ter anacrônico a Iararana; o que não perece justo.

Levando-se em conta o fato de a Semana de Arte Moderna ter ocorrido em 1922, enquanto so­mente em 1933 (2)
Sosígenes Costa assimilaria efeti­vamente as novas tendências, e realizaria a epopéia grapiuna, pode-se di­zer que estamos diante de um texto retardatário. Mas não se pode proceder a uma revisão da literatura brasi­leira a par­tir de cronologia e padrões cosmopolitas, tomando São Paulo como metrópole e centro irradia­dor dos modelos estéti­cos. Evidentemente, não pode­mos ignorar o fato da Semana de 22 ter se tornado um polo difusor da nova es­tética, mas também não é criterioso transformar este aconteci­mento em medida e parâmetro únicos da arte moderna, esquecendo outros critérios.

Se toda literatura está comprometida com as con­di­ções sociais em que se dá a produção – e isto não so­mente a estética marxista considera um ponto passivo, ou pacífico, mas quase toda corrente filosófica –, con­side­rar autores ou obras de regiões interioranas longín­quas, esperando uma correspondência, a par­tir de con­frontos cronológicos com obras e autores de centros desenvolvidos, conduzirá a resultados discutíveis.

O homem da velha Belmonte do poeta é como o crocodilo de João Guimarães Rosa: um mestre de me­tafí­sica, para quem sua pequena lagoa é o mundo in­teiro que ele desconhece; um mar de sabedoria.

Se quisermos falar em anacronismo estético, te­re­mos que incluir nesta categoria quase toda a produ­ção li­terária brasileira que, vista a partir de padrões e marcos cronológicos europeus, somente em raros momentos pode ser considerada integrada ao quadro cultural do momento histórico em que foi produzida. Não é justo to­marmos al­gumas obras capitais da nossa literatura como de menor validade pelo fato de terem surgido anos após a supera­ção dos seus padrões for­mais na França ou até mesmo em Portugal. Estas obras são importantes porque representam a resposta da inte­ligência de um povo a de­terminadas cir­cunstâncias da sua história. Os parâmetros para medir a importância de uma obra literária são as condições sociais em que ela é pro­duzida, razão pela qual a poesia de Gre­gório de Matos, por exemplo, não perde sua importância, di­ante do fato de Portugal, da Espanha e da Europa em geral terem produzido anteriormente for­mas que ante­cipa­ram esta lírica.

O mesmo podemos dizer do poema Iara­rana, de Sosígenes Costa, em face da poesia brasi­leira. Es­crito por um grapiuna, que vivia no sul da Bahia, entre as roças de cacau e as praias que vi­ram, pela primeira vez, as naus dos conquistadores europeus, o poema marca uma nova postura diante da arte. Uma postura eminentemente mo­derna e destinada a rever os pontos da tradição que consti­tuíam obstáculos ao livre fluir da sensibilidade e da expressão.

É conveniente levarmos em conta o fato do mo­dernismo ter chegado à Bahia, a nível de produ­ção e re­cepção plenas, somente em 1928, com a criação da revista Arco & Flexa, a primeira tenta­tiva de grupo em favor da nova estética.
Mesmo assim, um modernismo que se pre­tendia e autodenominava "tradicionismo di­nâmico", ex­pressão usada por Carlos Chiacchio e que traria no seu bojo o conservadorismo do "modernismo baiano". Go­do­fredo Filho, saudado e festejado no Rio e em São Paulo como modernista de primeira água, recolheu seu livro de estréia, a ser lançado pela Ponge­tti, o que não deixa de ser suspeito. Seria gratuito o gesto do poeta? ou a tradição provinciana mantinha seu renovado prestígio? O prestígio passadista, sim, era dinâmico; não o tradicionismo, que continuava es­táti­co.

Se a capital do estado procurava submeter aos usos do tempo provinciano os ecos da revolu­ção esté­tica que vinha da Europa, chegava com atraso a São Paulo e era despachada para a Bahia num trem ainda mais vaga­roso, pouco podia se es­perar de uma cidade­zinha do in­terior. O moder­nismo, na Cidade da Bahia, foi mais uma acomo­da­ção das novas formas à força da tradição, que uma mu­dança de atitude diante da arte e da vida. Mas uma aco­modação ruidosa, com ares de rebel­dia, capaz de diluir o ímpeto dos poucos escrito­res da província dispos­tos a uma nova atitude estética. Por isso mesmo, contrari­amente ao esperado, des­lo­cado do horizonte de expecta­ção pro­vinciano, Iarara­na se afigura como um poema moderno; à frente de tudo o que se vinha fazendo na capital da Bahia. Um poema tão importante como Cobra No­rato, de Raul Bopp, por exemplo, cuja primeira versão impressa apa­receu em 1931, (3)
apenas dois anos antes de Iararana, e que, por si só, foi sufi­ciente para colocar Raul Bopp na primeira linha do modernismo brasileiro.

Iararana, a grande epopéia grapiuna de So­sí­genes Costa, poderia ser classificado como uma obra intempes­tiva, ou como um simples texto poé­tico desti­nado a man­ter a continuidade de uma ati­tude estética, se se tratasse de um texto de repeti­ção. Mas, longe disso, é um poema vigoroso que, antes de propagar programas literários, se vale de novos recursos para, ali­ados à erudição do autor, realizar um programa ideoló­gico que difunde as idéias de Sosígenes Costa em face ao problema da constituição da raça brasileira. Longe, portanto, de ser um texto de repeti­ção do deslumbra­mento modernista da Semana de 22, Ia­rarana assume um compromisso com a própria poesia narrativa.

Anacrônico é o poema que se esgota en­quanto ati­tude de adesão de um autor a um mo­mento que se extin­gue, não cabendo o epíteto às obras que se colo­cam para além das formas da ex­pressão, usando os es­tilos de época e correntes lite­rárias como pretextos de redimensiona­mento do texto — como o faz Iararana.

Prova inequívoca do valor do poema de So­sí­genes Costa é o prazer estético despertado pela sua fru­ição ainda hoje, meio século depois.

Iararana não é somente uma obra que conta a história de uma região e atribui uma origem mito­lógica à cultura do cacau. É, principalmente, pelo seu enfo­que metonímico, uma moderna epopéia brasileira.


NOTAS

1) A expressão grapiuna é referente aos nascidos no sul do estado da Bahia, na região cacaueira, cuja saga escrita por Sosígenes Costa e convertida em prosa por Adonias Filho, Jorge Amado e outros escritores das terras do sem fim, documenta um ciclo da economia rural baiana em vias de extinção.

2) Embora o poema Iararana tenha sido escrito, na forma hoje conhecida, por volta de 1933, segundo José Paulo Paes, anteriormente foi feita uma versão em prosa, além de terem sido publicados fragmentos do poema, como textos autônomos, datados de época anterior a esta. Cf. José Paulo Paes: Iararana ou o modernismo visto do quintal. In Sosígenes Costa: Iararana, ed. cit., p. 3-19.

3) "A primeira edição de Cobra Norato é de 1931, mas o poema foi escrito em 1928." Cf. Abgar Bastos: Bopp, Belém, Antropofagia e Cobra Norato. In Raul Bopp: Mironga e outros poemas. Rio, Civilização Brasileira, 1978, p. 132-136.
Iararana foi escrito, portanto, mais ou menos na mesma época em que Cobra Norato ou, pelo menos, na época da publicação do poema de Raul Bopp. Após a edição de 1931, enquanto Bopp reescrevia Cobra Norato, fiel aos novos rumos ditados pelo compromisso estético assumido, Sosígenes Costa também reescrevia o seu Iararana; que, nas palavras de José Paulo Paes — plenas do topocentrismo da paulicéia engravatada e também da desvairada — é um reflexo do "modernismo visto do quintal".


REFERÊNCIAS

ARCO & FLEXA. Edição fac-similar — 1928/1929. Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978.

ALVES, Ívia: Arco & Flexa: contribuição para o estudo do modernismo. Salvador, Fundação Cultural do Estado da Bahia, 1978. 151 p.

BOPP, Raul: Mironga e outros poemas. Rio, Civilização Brasileira, 1978.

COSTA, Sosígenes: Iararana; introdução, apuração do texto e glossário por José Paulo Paes; apresentação de Jorge Amado; ilustrações e capa de Aldemir Martins. São Paulo, Cultrix, 1979. 115 p.

COSTA, Sosígenes: Obra poética. 2ª ed., revista e ampliada por José Paulo Paes. São Paulo, Cultrix / INL, 1978. 317 p.

PAES, José Paulo: Pavão, parlenda, paraíso: uma tentativa de descrição crítica da poesia de Sosígenes Costa. São Paulo, Cultrix / PACCE, 1977. 127 p.

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”O tom épico do modernismo na Bahia”. Originalmente publicado com o título de ”Iararana, a grande epopéia do modernismo grapiuna”. Belo Horizonte, Minas Gerais Suplemento Literário, 29 mar. 8O, p. 4-5. Republicado na Revista Brasileira de Língua e Literatura. Ano III, nº 7, Rio de Janeiro, 1º trimestre de 81, p. 56-58. Republicado com o título atual em Letra Viva, Salvador, (Suplemento da Secretaria de Cultura e do Diário Oficial do Estado da Bahia), nº 1, nov. 87, p. 4-5.