Godofredo Filho: 50 anos de presença literária e do modernismo na Bahia

Godofredo Filho, Eurico Alves e Carvalho Filho,
três poetas modernistas da Bahia.


Enquanto, em São Paulo, a década de vinte marcava o rompimento brusco e panfletário da inteligência mais atuante com os postulados estéticos do século XIX, na Bahia, parnasianos caudais e simbolistas de vôo rasteiro fossilizavam o prestígio de um decadentismo cultural que podemos chamar de belle époque epigônica dos becos e botecos da antiga metrópole colonial.

Para melhor compreensão da vida literária baiana dessa época, convém não perder de vista o alvorecer do século, quando Afrânio Peixoto e Xavier Marques esboçaram um procedimento estético que se tornou matriz para poetas, prosadores e publicistas do primeiro quartel do século XX, na velha Cidade do São Salvador e adjacências.

Lembre-se que a posição destes dois escritores nas letras nacionais já representava uma contemporização do romantismo, aliada às pálidas tintas de um naturalismo meteórico. Por isso, a belle époque baiana pouco acrescentou ao seu passado, limitando-se a um pastiche dos seus dois predecessores imediatos.

A rigor, após o romantismo, poucos conseguiram permanecer a cavaleiro neste baile castroalvino de viúvas condoreiras, que era o grande sarau literário da chorosa Bahia de Cecéu. Entre estes, destacam-se uns poucos heróis: os “bravos rapazes” das revistas Nova Cruzada e Os Annaes, que desempenharam o papel de disseminadores do simbolismo, no primeiro decênio do século. Mas os nomes de Pethion de Villar, Pedro Kilkerry, Durval de Moraes e Arthur de Salles não poderiam transpor os limites do simbolismo visto da província e anunciar a instauração do pensamento moderno. Embora insólitos com relação ao gosto literário do fim do século XIX, as próprias condições do ambiente cultural baiano criavam entraves para o grande salto que representaria uma nova revolução na sua formação estética.

Bem verdade que em outros estados nordestinos, poetas de inspiração parnasiana e simbolista evoluíram para o modernismo, conforme o significativo exemplo de Jorge de Lima — que começou como sonetista neo-parnasiano, autor do antológico “Acendedor de Lampiões”, um dos XIV Alexandrinos, e chegou a ostentar o título de “Príncipe dos Poetas de Alagoas”.(1) Jorge de Lima conseguiu dar o salto e já com O Mundo do Menino Impossível adere ao modernismo, como ressalta Manuel Bandeira. (2) Como epígrafe dos Novos Poemas se lê: “E o menino impossível quebrou todos os brinquedos que os vovós lhe deram”.

Já entre os baianos, os brinquedos doados pelos avós eram guardados e transformados em utensílios poéticos pelos netos adultos, veneráveis anciões a brincar com pelourinhos de papel dourado.

Até mesmo o fenômeno Kilkerry, “sistema de alarma premonitório” (3) da arte poética moderna, teve sua voz abafada pelo som bombástico dos atabaques retóricos. Surpreendentes são alguns trechos do poeta no Jornal Moderno, em 1913:

— “Olhos novos para o novo! Tudo é outro ou tende para outro!”

— O metro é livre: vivamo-lo. O mais importante, porém, de tudo, dessa complexidade, de toda essa demência raciocinante é que as harmonias individuais, os caracteres não podem ser velhos como os senadores de Roma ou os sete sábios que cofiaram longas barbas na velha Grécia. Não se arrastam passos, braços não tremem; na existência do século não se titubeia.”

— “Ao tempo em que escrevo estas linhas, já aí está a urgência suarenta do tipógrafo a espiá-la e ouço a trepidação ansiosa do maquinismo impressor, a que estou associando a ânsia dos leitores no nosso órgão, que é o do seu momento social, da hora que soa.” (4)

Apesar da sonora proposta vanguardista — Olhos novos para o novo! — a província desconheceu ou não quis entender a contribuição de Kilkerry, cujo pensamento foi encontrar paralelo anos mais tarde, não mais na Bahia, mas em São Paulo, pelo intrépido voyer Oswald de Andrade — “Ver com olhos livres” — conforme notou e anotou atento Augusto de Campos. (5)

Por toda indiferença ao novo é que se costuma afirmar que o movimento modernista só chegou à Província vinte ou trinta anos depois. Na verdade, há um injusto exagero, porque, em 1925, ou seja: três anos após da Semana de 22, um jovem poeta baiano, então desconhecido, publicava seus primeiros trabalhos no suplemento literário do jornal A Tarde, causando estranheza e tumulto. Era Godofredo Filho, o nosso velho bruxo alquímico, para quem, anos mais tarde, a revista Ocidente, de Lisboa, abriria várias vezes as suas páginas, como em 1971, através do ensaio de Jerusa Pires Ferreira, que afirma com ênfase: “É ainda na alquimia que Godofredo Filho se mostra o grande preparador, o grande aliciador e codificador de mistérios, um dos mais injustiçados poetas brasileiros. É preciso conhecê-lo para avaliar a sua altitude transfiguradora, a sua grandeza de destruidor-construtor (princípio mecânico que rege a arte e a consciência de uma Modernidade).” (6)

Eugênio Gomes, ao discutir a presença da arte moderna na Bahia, também afirma: “mas quem quiser captar as suas primeiras manifestações terá que começar pelo poeta Godofredo Filho. Este fino lírico atraiu para si a pior empreitada, atirando-se inicialmente sozinho à jaula dos leões da reação local, no começo da década de 1920, quando o eruditismo intolerante ainda predominava de maneira hostil”. (7)

Vejamos então o acontecimento tomado como marco inicial da consciência modernista na Bahia: a estréia literária de GF, que se deu há cinqüenta anos, quando, sob o título de "Poesia Nova", o crítico Carlos Chiacchio publicava a seguinte nota:

— “Godofredo Filho, vinte anos em flor, é o poeta que hoje o suplemento literário da A Tarde vae revelar ao mundo das letras. A sua obra, só conhecida dos íntimos, é já numerosa e rica em prova de talento, de tamanho prestígio lyrico, nas suas promessas calorosas, que se lhe pode classificar, no conceito justo de um dos nossos homens de letras, como «a maior expressão da poesia nova da Bahia...»”.

E prossegue: “É perfeitamente dispensável adeantar juizos críticos sobre as producções que a seguir publicamos, valendo apenas, por alegria de reconhecer valores legítimos na nossa fecunda terra tradicional da poesia e do talento, chamar a attenção dos leitores para este poeta moço, vibrante de rythimos sadios e idéias novas, tão empolgantes pela frescura matinal das tintas, como impressivas pela precocidade extraordinária dos seu estro.” (8)

Além desta apresentação, inegavelmente honrosa para um jovem de apenas vinte e um anos (pois lhe abria as portas de uma roda fechadíssima, girando em torno dos nomes que reverenciavam a figura de Chiacchio), eram publicados cinco poemas de Godofredo: “Ironia”, “Melancolia do Arrabalde”, “Onde o silêncio dorme”, “Esta saudade do adolescente lyrico” e “Poça d’água”.

Logo depois viria a projeção do seu nome nos meios modernistas do sul do País, quando o poeta Manuel Bandeira reuniu um grupo de intelectuais numa das célebres noitadas da sua casa de Santa Tereza. Eugênia e Álvaro Moreyra, os então jovens Mário de Andrade, Jayme Ovalle, Prudente de Moraes Neto, Augusto Frederico Schmidt e Rodrigo M. F. de Andrade ouviram pela primeira vez os versos de GF. Logo o seu nome passou a ter livre trânsito, tanto pelas entrevistas sobre arte moderna concedidas a O Jornal e a O Globo, (9) quanto pelo respeito que merecera dos iniciadores do modernismo brasileiro.

A atenção com que os modernistas do primeiro momento acompanharam Godofredo Filho pode ser testemunhada tanto pelas alusões críticas ao seu trabalho quanto por episódios particulares, registrados em correspondências, hoje transformadas em documentos valiosos para o estudo de um momento privilegiado da inteligência brasileira. Entre estes papéis está um bilhete, de 1927, escrito por Mário de Andrade a Cauto de Barros, numa folha amarrotada: “Eu gosto muito de Godofredo Filho e quero pedir para você fazer as honras da nossa terra pra ele. Escrevo nisso porque cadê cartão? Cartão está na mala grande lá no hotel e eu nesta Cabaça grande comendo uma peixada à moda da casa com vinho Granjó e quase desistindo de falar brasileiro diante destas tradições gostosas. Mostre coisas bem bonitas, heim! Arquiteturas, Tarsila, São Bento, Guilherme com Baby, você, prudencial e cômico etc.” (10)

Lembremos, a propósito, o artigo de Manuel Bandeira que testemunha a luta de GF e torna incontestável a posição, que lhe é de direito, de iniciador do modernismo na Bahia: “A apresentação vale a pena. Godofredo Filho é um admirável poeta. Tem 23 anos e nunca saiu da Bahia. Sensibilidade ardente e pronta, técnica precisa, ao par dos últimos achados da vanguarda”. (11)

Enquanto, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, Godofredo Filho assumia o papel de divulgador das ressonâncias modernistas baianas, na Província, o movimento ia aos poucos se estabelecendo. Numa época em que os jovens — congregados em torno de Anísio Teixeira — passavam das letras às disputas filosóficas e às justas políticas, Godofredo Filho e Jerônimo Sodré fundavam a Liga de Ação da Mocidade. Era um “misto de sociedade literária e científica, de partido político e falange revolucionária, cuja organização impossível e estatutos chegamos a esboçar”. (12) Nestor Duarte, Jayme Junqueira Ayres, Felix Poncet, os dois Faria Gois, Hebert Fortes, Luís de Sena, Hermes Lima e Luís Viana Filho eram os nomes de prestígio jovem. Somente depois, como assegura GF em depoimento de 1952, é que surgiria o grupo Arco e Flexa, com “aqueles irrequietos rapazes, que hoje são os queridos e sereníssimos Rafael Barbosa, Hélio Simões, Pinto de Aguiar, Eurico Alves, sem falar nos que por aí vão esquecidos”. (13)

Desse modo, Carvalho Filho, Eugênio Gomes, Hélio Simões e Afrânio Coutinho foram expressões das mais significativas, no âmbito da criação ou da reflexão crítica, de uma consciência de modernidade que se esboçava, mas cujos primeiros embates têm como cavaleiro a figura de Godofredo Filho.

O próprio Eugênio Gomes afirma que o autor de Solilóquio é “o legítimo precursor do modernismo na Bahia e um dos melhores poetas brasileiros de sua geração”. Esclarece ainda que “a rigor, não pertenceu ao grupo de Chiacchio; tinha-se antecipado de alguns anos em escandalizar as tranqüilas consciências literárias de nossa terra, com experiências surrealistas que, se fizeram rir a muitos, deixaram outros apreensivos, pois, também havia certa ordem nessa loucura...” (14)

Assentada a importância do papel desempenhado por GF na renovação das nossas letras, resta-nos um problema estritamente ligado a esta discutida e discutível renovação. Sabemos que em 1928 a Pongetti imprimia Samba Verde, com poemas nitidamente modernistas de Godofredo Filho, como o onomatopaico Fiau. (15)

Espraiando-se confortavelmente pela folha em branco, o poema falava em alta voz de jovem autor:

— Zum!
— Fiau!
A vaia do vento,
pela boca entreaberta da janela,
esguincha,
pincha
e raiva, fria,
uma ironia
bravia
que assovia...
— Fiau!
Bulindo, tinindo, rindo dessa tranqüilidade ingênua
os interiores,
em brusca troça, brava, boa,
rechina
estoura,
espouca
a vaia
que azagaia,
do vento
agora bronco, meio broco,
enrouquecido,
apalermado
o vento...
Fiau!

Neste mesmo ano, antes do esperado lançamento de Samba verde, Godofredo recolhia a edição do seu livro, argumentando que este não mais representava a deriva da sua pesquisa estética.

Teriam os tambores antigos atingido os ouvidos cosmopolitas do modernista baiano, abatendo o pássaro em vôo pleno?

A tradição fala mais forte na primeira capital da colônia, onde a vanguarda é tradicionista. Em 1928, o mesmo ano da despublicação de Samba verde, quando os jovens Pinto de Aguiar, Hélio Simões, Eurico Alves e Carvalho Filho lançaram a revista modernista Arco & flexa, o movimento renovador baiano já vinha desrenovado pela designação da sua proposta de um tradicionismo dinâmico.

Daí as controvérsias e a afirmação de que o modernismo não chegou a subir as ladeiras da velha Bahia. Muito se afirma que nem GF nem os poetas que vieram a seguir, como Carvalho Filho, Hélio Simões e outros chegaram a se definir pelo modernismo, uma vez que atenuaram as primeiras posições de vanguarda. Mas Eugênio Gomes, que integrou esta geração, luta pela inclusão da Cidade da Bahia na geografia modernista dos primeiros combates; e afirma que “é uma exclusão incompreensível, sabendo-se que a terra de Gregório de Matos — tão bravo em suas rebeldias! — não esteve, de modo algum, alheia e este movimento, embora fosse, por sua condição de cidade tradicionalmente acadêmica, o mais obstinado reduto contra a revolução estética”. (16)

A propósito, o poeta Manuel Bandeira, com sua visão crítica aliada às “antenas do artista”, um ano antes da anunciada publicação de Samba Verde, mostrou a ambivalência da condição poética de Godofredo Filho e a sua ânsia de domar antíteses. Estas contradições aparentes, Alceu Amoroso Lima percebeu depois, ao estudar a ataraxia do poeta, que é uma máscara de violentos conflitos entre a ânsia carnal e a angústia metafísica. Por isso é que o crítico proclama: “Nenhum poeta brasileiro soube, como você, imobilizar o tempo e a paixão, sem retirar, nem a um, nem a outra, a sua infinita mobilidade. É isso, creio eu, que faz a extraordinária originalidade de sua poesia, tão aparentemente sofisticada e fria, e no fundo tão dramaticamente sensual, culinária, falérnica, numa coincidência de contrastes que é a marca do seu vinho das videiras do seu sítio íntimo, do seu jardim fechado, e no entanto aberto a todos os furacões do mundo e da carne”. (17)

Mas deixemos para outro momento a discussão do aspecto conceitual do conflito godofrediano e insistamos, mais um pouco, no plano formal, onde GF faz refletir a mesma dialética de embates. É por isso que, ao saudar com entusiasmo a vinculação do poeta baiano aos “últimos achados da vanguarda”, Manuel Bandeira sublinhou o seu respeito pela tradição:

— “E, o que é inestimável, a ausência de preconceitos modernistas. Sem dúvida que detesta passadistas, mas não é um dos tais que desejariam botar a baixo a Sé Velha para abrir avenidas amplas e arejadas. É namorado de todas as casas velhas da Bahia, que ele conhece palmo a palmo. Sabe a hora propícia em se olhar tal fachada, tal pórtico, tal saguão, tal janela. E confia-nos ao ouvido, como se revelasse intimidades de amigo, os detalhes históricos daquelas pedras veneráveis.

— Aqui, nesta Capela, Vieira pregou o famoso sermão contra as armas holandesas...
E o perfume que lhe vem da terra natal não é cheiro de velharia, mas odor virente de mocidade que exalta:

No silêncio da tarde americana...
(Ó cheiro bom de mulher moça!)
Perfume da minha terra!

A poesia de Godofredo Filho é tão bem educada como a de Ronald ou de Guilherme. Porém, debaixo daquela sobriedade elegante de citadino há assombrações desatinadas de jagunço, há dendês chiando no fogaréu vermelho e rumores inquietantes de arapuás danados...” (18)

De acordo com o testemunho da época, Godofredo Filho perdeu, ao deliberadamente rejeitar o livro Samba Verde, a oportunidade de se fazer um dos modernistas brasileiros mais atuantes, publicado, discutido e pioneiro, enquanto a Bahia se retirava definitivamente dos primeiros momentos de produção / recepção da arte moderna no Brasil. Mas, ao mesmo tempo, pode-se argumentar que a atitude de GF contrapunha uma vantagem sobre os moços da Klaxon, pois já via além dos embates iniciais do modernismo, sem os preconceitos aludidos por Bandeira e sem a carnavalada19 destruidora contra a qual o próprio Mário de Andrade, somente muitos anos mais tarde, se levantou, apontando os gestos vazios de 22.

Ao criticar A estética do modernismo, publicada na Paraíba por Ascendino Leite, o autor de Paulicéia desvairada fala da “mesma felicidade abundante e satisfeita de si, com que os modernistas de há vinte anos atrás afirmavam que Alberto de Oliveira era um trouxa e Camões uma besta. Depois, verificou-se de novo que nem Camões era besta nem Alberto Oliveira um trouxa, e as afirmações grotescamente ofensivas e sem nenhum valor crítico ficaram apenas como cacoetes de alguns retardatários.” (20)

Mário de Andrade distinguia perfeitamente a fase inicial, demolidora, de 22, da fase de realização plena, após a derrubada das barreiras à criação. Este mesmo artigo crítico de 7 de janeiro de 1940, intitulado singularmente de “Modernismo” é finalizado com a lúcida afirmação, típica do autor: “O Modernismo foi um toque de alarme. Todos acordaram e viram perfeitamente a aurora no ar. A aurora continha em si todas as promessas do dia, só que ainda não era o dia. Mas é uma satisfação ver que o dia está cumprindo com grandeza e maior fecundidade, as promessas da aurora. Ficar nas eternas aurorices da infância, não é saúde, é doença. E a literatura brasileira aí está, bastante sã. Adulta já? Quase adulta...”

Se não tivemos na Província as célebres batalhas travadas nas praças, teatros e salões de São Paulo, o papel da Bahia não foi o da indiferença total, porque alguns dos seus homens de letras tentaram amadurecer os frutos novos. E, neste sentido, também os poemas de Carvalho Filho, Hélio Simões e Eurico Alves aliam modernidade e maturidade, inscrevendo seus autores num lugar privilegiado.

É claro que, com a morosidade dos meios de comunicação da época, a Bahia, estando geograficamente distante de São Paulo, só poderia receber intempestivamente o entusiasmo diante das novas idéias. Esta é uma das razões pela qual a nossa terra não aderiu francamente ao bloco destruidor do modernismo; aliada a tantas outras que tornaram aqui a reação posterior maior que às dos outros estados.

Para Agripino Grieco, “Godofredo é um místico que ainda não achou a sua mística. Saudoso, compõe umas arietas sentimentais, tramas aéreos de versos quase incorpóreos, que recita com voz sufocada, de quem está sendo estrangulado pelo garroteador da tela de Goya. Na virtuosidade do abstrato, Godofredo converte tudo em visão arcaica. É um alucinado dos séculos esse pobre menino perdido num mundo sem alma, num mundo de bichos de ferro. Doido pelo acarajé e também pelas vendedoras de acarajé, sabe toda a Bahia de cor, trecho a trecho, bequinho a bequinho. Conhece a cor do tempo, a cor dos olhos de todas as criaturas. Romântico cantor de Ouro Preto e da sua Feira de linhas retas, adormecida de planura, como a bela do conto de Perrault”.(21)

Agripino Grieco volta assim à questão do embate entre forças conflitantes na poesia e no espírito do poeta Godofredo Filho. O mesmo conflito percebido por outros críticos da sua obra: o requinte do pensamento racional, por um lado, e, por outro, a sensualidade apimentada de “dendês chiando no fogaréu vermelho e rumores inquietantes de arapuás danados”.

Como já afirmou Eugênio Gomes, não se deve ignorar a presença do modernismo na Bahia. O que não tivemos foi um modernismo agressivo e pleno (como o Sturm und Drang dos pré-românticos alemães), mas não se podem negar as adesões às novas conquistas estéticas nem a importância da contribuição pioneira de um poeta atento aos novos rumos da arte e capaz de assumir, no calor da hora, a reflexão em torno de um movimento que ainda se processava.

Mas um recuo fatal para a recepção da sua poesia, e para a literatura baiana, excluiu Godofredo Filho do pantheon dos poetas nacionais: privar o público do conhecimento do seu trabalho, uma vez que a livre circulação de Samba Verde representaria a continuidade do estabelecimento do seu nome, que começava a se fazer com as entrevistas sobre a arte moderna e as primeiras leituras dos seus versos. A ausência do poeta dos meios literários do Sul e as pequenas edições (de cinqüenta e até mesmo quinze exemplares) que narcisicamente impunha à sua obra, impediram a Bahia de ter hoje, no âmbito nacional, um poeta de reconhecida qualidade.

A crítica de Augusto Frederico Schmidt, publicada nas páginas do Galo Branco, anos depois da desaventura modernista do poeta baiano, servem para avaliar a posição do jovem autor de Samba verde, na fase demolidora da arte moderna: “Mestre Godofredo Filho move-se com lentidão e dignidade. Vozes o saúdam de janelas antigas (...). Lembro quando chegou o Mestre ao Rio em mil novecentos e vinte muitos, pageado por Mário de Andrade. Moço em flor, mas já macio, civilizado, correto. Agora é um madurão como eu mas continua o mesmo homem fiel às preocupações de sempre, aos temas baianos bem amados. Acontece apenas que Godofredo Filho já se misturou para sempre à atmosfera, ao espírito, aos azeites baianos. É um baiano que, à força de o ser, universalizou-se. Tão baiano que é um grande da cultura, de toda parte.” (22)

Numa louvação epistolar, Alceu Amoroso Lima completa o retrato do poeta falando do “prazer autenticamente requintado que a leitura dos seus sonetos, dignos de Horácio e Gôngora, me proporcionou”, acrescentando: “Como o nosso Albano, dos tempos simbolistas, Você se manteve fiel à sua mais pura inspiração clássica, não neo-clássica, nos campos do modernismo. Como um Guilherme de Almeida, ou como um Abgar Renault ou um Odylo Costa Filho, Você pertence à grey (ponho um ipsilon de propósito) que paira acima das controvérsias. É que escreve uma língua tão pura e tão alta que nos transporta para lá do tempo e do lugar.”23

Se Godofredo Filho se recusou o papel de Paulo de Tarso do modernismo na Bahia, não conseguiu, no entanto, com o pudor do seu recolhimento, ou com ambivalência trazida pela força da tradição, fugir à condição de um pioneiro. Ou, mais ainda, de um Poeta pleno e fulgurante. De um “poeta federal”, no dizer de Drummond. E é a isso que louvamos com entusiasmo, na esperança de demover o alquimista do silêncio, para que um dia, que não está longe, o público leitor possa ter uma amostragem da trajetória poética de GF. Uma edição crítico-retrospectiva que publique desde os poemas de Samba Verde até a sua recôndita e veladamente citada "Balada da dor de corno" —

Na praia da Conceição
afoguei meu coração.
Vinha o Nordeste montado
num potro de crinas d’água

— despindo, por inteiro, este poeta que se debate entre dois metais ardentes: o pecado e a virtude, a sensualidade da carne e a fé do espírito, o momento mais que imperfeito do homem e a promessa de uma “cidade solar do Apocalipse”. (24)

REFERÊNCIAS
1. Alfredo Bosi: História concisa da literatura brasileira, 2ª ed., São Paulo, Cultrix, 1974.
2. Manuel Bandeira: Apresentação da poesia brasileira, Rio de Janeiro, Ed. Ouro, 1967.
3. McLuhan tornou lugar comum a concepção de Ezra Pound do artista como “antena da raça” ou como antecipador de ocorrências e tendências sociais. Cf. Ezra Pound: Abc da literatura, São Paulo, Cultrix, 1970. Ou ainda, Marshall McLuhan: Os meios de comunicação como extensões do homem, 4ª ed., São Paulo, Cultrix. 1974.
4. Pedro Kilkerry: “Quotidianas”, In Jornal Moderno, Bahia, 4 mar. 1913, p. 3. O poeta usa o pseudônimo Petrus.
5. Cf. Augusto de Campos: Re-visão de Kilkerry, São Paulo, Fundo Estadual de Cultura, 1970. Ou ainda, Oswald de Andrade: “Manifesto da Poesia Pau Brasil”, In Obras Completas, vol. VI, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1972.
6. Jerusa Pires Ferreira: A alquimia generativa do bruxo Godofredo Filho, Separata da revista Ocidente vol. LXXXI, Lisboa, 1971. E diz mais: “Em Godofredo Filho há uma depuração ou exaltação alquímica do macabro, a organização do desconcerto buscando um Caos salvador, uma liga de que se conhecem e arrumam os elementos e em que se manipulam vocábulos raros como se poderia manipular o simbolismo das cores operacionais. “Canto cruel” é o caminho cada vez mais intenso de um poeta que não chega a ser tragado pelo maldito, porque nos dá e retira, ele próprio, a possibilidade de entrever longínquos mundos, perdidas perfeições distantes, de se salvar ou nos salvar por um «ciclone de cristal, no vale misterioso que a música suspende».”
7. Eugênio Gomes: “Cinqüentenário de um poeta”, Letras e Artes, Rio de Janeiro, A Noite, 6 abr. 1954.
8. Carlos Chiacchio: “Poesia Nova”, A Tarde, Salvador, 10 jan. 1925. A nota não vinha assinada, mas como figurava na seção mantida nesse jornal pelo conceituado crítico, a autoria não oferece dúvida.
9. O Jornal, Rio de Janeiro, 29 mai. 1927 e O Globo, Rio de Janeiro, 20 ago. 1928.
10. Cf. o facsímile do Bilhete de Mário de Andrade a Godofredo Filho que publicamos em número especial do suplemento literário do Diário de Notícias, dedicado ao poeta, nas comemorações dos seus setenta anos. Salvador, Jornal de cultura, 5 mai. 1974.
11. Manuel Bandeira, In O Jornal, Rio de Janeiro, 1927.
12. Godofredo Filho: “O artista poderá servir-se da causa, mas, esta, jamais, do artista”, entrevista concedida a Claúdio Tavares, In Diário de Notícias, Salvador, 2 nov. 1952.
13. Godofredo Filho: ibidem.
14. Eugênio Gomes: “Cinqüentenário de um poeta”. Letras e Artes, Rio de Janeiro, A Noite, 6 abr. 1954.
15. Godofredo Filho: Samba Verde, Rio de Janeiro, Pongetti, 1928. Ver também: Godofredo Filho: “Poemas e textos inéditos”, Jornal de Cultura, Salvador, 5 mai. 1974, p. 5, nº 12 (Suplemento do Diário de Notícias).
16. Eugênio Gomes: “Cinqüentenário de um poeta”. Letras e Artes, Rio de Janeiro, A Noite, 6 abr. 1954.
17. Alceu Amoroso Lima: “Carta a Godofredo Filho”, In Sete Cantares de Amigo. Cidade da Bahia, Edições Arpoador, Fundação Cultural do Estado, 1975. (Coleção Jogral)
O texto de Alceu Amoroso Lima e a publicação inserem-se nas comemorações dos sessenta anos de Godofredo Filho.
18. Manuel Bandeira, In O Jornal, Rio de Janeiro, 1927.
19. Godofredo Filho: Samba Verde, Rio de Janeiro, Pongetti, 1918. Carnavalada é o título de um dos poemas do livro.
20. Mário de Andrade: Modernismo, In O empalhador de passarinho, São Paulo, Martins; Brasília, INL/MEC, 1972, p. 185 e 185.
21. Agripino Grieco: Godofredo Filho. O Jornal. Rio, 18 nov. 1934.
22. Augusto Frederico Schmidt: Crítica. Revista da semana, nº 14. Rio de Janeiro, 1957.
23. Alceu Amoroso Lima: Carta a Godofredo Filho. Rio de Janeiro, 18 set. 1971. Jornal de Cultura, Salvador, 5 mai. 1974, p. 2.
24. Cf. D. Timóteo Amoroso Anastácio: Apresentação do álbum Breve Romanceiro do Natal, Salvador, Beneditina, 1972.


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”Godofredo Filho: 50 anos de presença literária e do modernismo na Bahia”. Salvador, Tribuna da Bahia, 23 mai. 75, p. 11.