O sumiço da santa: síntese do romance urbano de Jorge Amado


Um outro grande escritor brasileiro, embora marinheiro de águas diversas, João Guimarães Rosa, nos dá a chave de um dos segredos da escrita de encantado, ou do ebó do filho de Oxóssi, Amado. Ao responder a uma pergunta do ensaísta alemão Günter Lorenz a propósito da ideologia da ficção latino-americana, ou mais especificamente de Asturias, numa margem do rio, e de Jorge Amado, na terceira, Guimarães Rosa discute o problema do compromisso do escritor com a sociedade em que vive.

Não nos esqueçamos que o autor de Grande Sertão: Veredas rejeitava a imposição de um discurso partidário ao narrador de ficção, reservando para o artista um compromisso maior e menos imediato, um compromisso com a vida. Daí o fato dele se referir mais especificamente, à obra da maturidade de Jorge Amado e não aos seus romances da primeira fase.

Em janeiro de 1965, no Congresso de Escritores Latino-Americanos, realizado em Gênova, a questão política e o engajamento do escritor eram palavras de ordem. Vejamos como, nestas circunstâncias, Guimarães Rosa via a obra de Jorge Amado. Para isto daremos a palavra, por um instante, a Günter Lorenz e a Guimarães Rosa, flagrando os dois num momento de diálogo durante o Encontro.

Pergunta Günter Lorenz:

– "E Amado, o senhor não acha que este fabulista magnífico e amigo dos homens também pensa ideologicamente?"

Rosa responde:

– "Com certeza, ele também é um ideólogo, mas sua ideologia me é mais simpática do que a de Asturias. Asturias tem algo daquele distanciamento incorruptível de um Sumo Pontífice. Ele pronuncia sempre novos dez mandamentos. Isto é admirável, mas não encanta. As palavras de Asturias são palavras de um pai, um patriarca, que pronuncia sentenças no gênero do Velho Testamento. Amado é um sonhador, ele é com certeza também um ideólogo, mas é a ideologia da fábula, com suas regras de justiça e expiação. Amado é uma criança – prossegue Guimarães Rosa, uma criança – que continua acreditando na vitória do bem. Ele defende a ideologia menos ideológica e mais amável que eu conheço. Asturias é a grande voz do Juízo Final. Amado dá pinceladas à toa até mais não poder. Ele quer na verdade mandar para o diabo várias coisas, mas isto ele faz com tanto charme que a gente lhe acredita com maior razão." (Rosa, 1971, p. 285)

Creio que Guimarães Rosa sintetiza de modo inequívoco o que chamei de um dos segredos da escrita de encantado, ou do ebó do filho Amado de Oxóssi. Jorge não usa a sua pena como uma lança de matar dragões, mas como uma vara de condão, querendo transformar a serpente do mal em serpentinas do carnaval. Sim, a festa, a felicidade, a alegria dos homens e das mulheres são o sonho obsessivo do velho contador de histórias da nossa gente. A literatura para Jorge Amado não é um catecismo onde se diz como devemos rezar, ela é um jogo, que nos convida ao riso. Ele alegra e diverte os seus leitores. Mas não se enganem: este menino sonhador de oitenta anos não tem nada de ingênuo. Enquanto um olho dorme o outro pisca malicioso e certeiro. Por isso, quando sugere, por entre breves clarões do raio, a gente lhe acredita com maior razão. Jorge Amado é um fingidor. Finge tão amadamente que ensinou a Gabriela e também a Dona Flor.

O texto de Jorge é maroto, matreiro. As armas do cavaleiro, o santo do dragão, e os poderes de Oxóssi, guerreiro imbatível, não são depostos na escrita do nosso Jorge, o não santo. Nele, os poderes do Orixá e do Santo se escondem, numa tocaia grande, para o golpe certeiro.

Na tradição luso-brasileira, desde Gil Vicente, com suas pantomimas e presepadas, que o texto de um escritor hábil distrai e destrói a hipocrisia, a usura e a injustiça. Ridendo castigat mores. É a divisa aplicada à obra vicentina. Rindo, corrige os costumes, a ambição da obra amadiana.

Mas este objetivo o escritor baiano não confessa. Suas armas são certeiras, mas silenciosas. Vejamos o que dizem as palavras finais do pórtico do livro O sumiço da santa:

"Projeto de romance anunciado há cerca de vinte anos, sob o título de A Guerra dos Santos, somente agora, no verão e no outono de 1987, na primavera e no verão de 1988, em Paris, coloquei o enredo no papel. Escrevendo-o, diverti-me; se, com sua leitura, alguém mais se divertir, me darei por satisfeito." (Amado, 1988, p. 11)

Muita gente ingênua, intelectual, que só sabe ler palavra grave, sisuda, acredita que as palavras deste livro são apenas "deliciosos divertimentos para adultos", expressão feliz do poeta Carlos Pena Filho. (1969, p. 151) Não esqueçamos, porém, que o velho Jorge é um narrador dissimulado e sinuoso, como se fosse Oxum a dona da sua escrita. Ou, como Guimarães Rosa preferia dizer: "Ele quer na verdade mandar para o diabo várias coisas, mas isto ele faz com tanto charme que a gente lhe acredita com maior razão."

Ao trocar o nome original do livro A guerra dos santos, de aspecto épico e grandiloqüente por um prosaico O sumiço da santa: Uma história de feitiçaria, Jorge Amado encena diante do leitor o papel do jogral alegre que se diverte ao fazer os outros se divertirem. Ou melhor: que se diverte ao despistar o divertido leitor.

Evidentemente, não podemos dizer se a intenção consciente do autor era divertir ou despistar. Mas este texto nos diz que seu autor não é somente um escritor divertido. É um feiticeiro fingido que esconde os poderes do seu ebó. O sumiço da santa é, na verdade, uma guerra de demiurgos, de deuses poderosos, um confronto de culturas e raças em busca de caminhos.

O realismo mágico da escrita amadiana converte-se em alegoria épica de um povo.

De um lado os valores sacrossantos da civilização européia cristã, representados pelo padre espanhol José Antonio Hernadez, exemplo de bom cristão aos olhos inquisidores do Santo Ofício, valores estes reafirmados pela arquidiocese, na figura de D. Rudolph, Bispo Auxiliar; pelos poderes do Estado, através do coronel Raul Antônio ou do doutor D'Ávila, juiz de menores e falangista da Cruzada Anticomunista.

Do outro lado, a "gentinha", a "ralé", os cavalos de encantados trazidos da África nos porões dos navios negreiros, a gente mestiça da Bahia, seus orixás, suas crenças, sua ética adversa à moral dominante.

O narrador dos romances de Jorge Amado simula a perspectiva do dominador, dos bem-nascidos homens da terra. A escolha vocabular marcada pelo preconceito das expressões usuais para designar os párias da pátria ganha relevo em confronto com a gesta plebéia, o canto das façanhas de heróis anônimos. Ironia e exaltação épica perpassam o texto numa fusão insólita: aquilo que ele designa, entre irônico e sério, de "romance baiano". (No frontispício do livro, logo abaixo do título O sumiço da santa: Uma história de feitiçaria, se lê: "romance baiano". Na contracapa, aparece o apelo a gosto sulista: "só na Bahia podia acontecer".)

A nação negra e mestiça, que constitui cerca de oitenta por cento da população de Salvador, é o herói plural da narrativa amadiana.


Assim como os poetas épicos e dramáticos da antigüidade clássica estabelecem um discurso recorrente aos mitos e à tradição da sua cultura, a cultura helênica, o texto amadiano se instaura como diálogo intertextual com a cultura popular da Bahia, os mitos e tradições dos descendentes de príncipes e súditos africanos trazidos como escravos.

As formas poéticas iorubanas, comuns na poesia oral deste povo e rediviva nas manifestações religiosas do candomblé, em forma de saudação e apresentação, perpassam o discurso do narrador amadiano. São os orikis, ou saudações à cabeça do iniciado, ou ainda, para usar um termo da nossa cultura, um pequeno curriculum de quem se apresenta, pronunciando seu oriki.

Seguindo esta perspectiva crítica, Jorge Amado deve ser visto como um clássico da cultura do seu povo e do seu tempo, cujos temas constróem o perfil do herói coletivo: o homem comum.

Um clássico de um tempo agreste, mas um clássico, de uma civilização dita moderna, que segrega a maioria da população em relações econômicas e sociais tipicamente medievais. Não é por outra razão que, há muito tempo, Monteiro Lobato percebeu: "Na planura da literatura brasileira, Jorge Amado vai ficar como um bloco súbito de montanha híspida, cheia de alcantis, de cavernas, de precipícios, de massas brutas da natureza." (Lobato, in: Amado, 1977, contracapa.)

Outros clássicos de todos os tempos, como Plauto, Shakespeare, Molière, Gil Vicente ou Machado de Assis, também fizeram dos homens e dos costumes, das misérias e das pequenezas, das grandezas imperceptíveis e das coisas simples, a matéria ficcional mais densa e mais duradoura.

A simplicidade discursiva da obra amadiana, a sua intenção de ser lido por toda gente, como um contador de histórias, ao invés de afastá-lo da melhor literatura, como pode supor o pedantismo intelectual, ou o teórico engomado, como bem a propósito dizia Ezra Pound, insere Jorge Amado no rol de criadores universalmente lembrados. Mas a presença física do autor, o seu grande prestígio pessoal, não permite ao nosso tempo um distanciamento necessário para o julgamento seguro e desapaixonado que só o próximo século propiciará. Quem viver verá.

De forma incompleta e redutora ao âmbito de uma comunicação breve, podemos dizer que a teia central do romance O sumiço da santa, ou o pretexto da alegoria, gira em torno de Adalgisa, abicun rebelde que teima em impedir a passagem do seu santo. O preceito ensina que quando uma mulher grávida se submete aos rituais de iniciação, o filho ainda em gestação também se liga ao axé do orixá. Foi o que aconteceu com Adalgisa, pequeno óvulo fecundado sem que a mãe o soubesse.

Para relembrar o trecho do livro em que se conta a iniciação da Andreza, a mãe de Adalgisa, nos mistérios de encantado, peçamos ao próprio Jorge Amado para falar. É ele quem conta:

"Nem por amigada com espanhol branco e rico, Andreza desdenhou de sua gente negra e pobre, seguiu freqüentando candomblés, cumprindo obrigações de santo e normas de amizade. Quando o conheceu, acabara de acertar com mãe Aninha, do Axé do Opô Afonjá, que se recolheria à camarinha no próximo barco de iaôs para raspar a cabeça e receber Yansã, seu orixá de frente. Assim o fez, deixando-o [ao amante] a ver navios, contando nos dedos os dias da iniciação. Apenas não sabia que levava no ventre o produto dos amores com o gringo que a seduzira e lhe montara casa: estava prenha de Adalgisa. Ao descobrir, já era tarde: iaô de éfun completo, cabeça raspada, corpo pintado, banhos de maionga, o encantado dentro dela junto com o abicun. Não lhe pertenceria o filho que palpitava em seu ventre, pertencia à santa. No dia do ôrunkó, da festa do nome, Andreza saltara duas vezes, dera dois nomes, um era o seu, o outro, o do abicun."

E prossegue o autor:

"Sendo Adalgisa ainda menina nova, acabara de ultrapassar a primeira etapa, a dos sete anos, Andreza lhe contara o acontecido com abundância de detalhes, informando-a acerca da condição especial dos abicuns. [...] Adalgisa recusou-se a ouvir, sua crença era outra, outros seus santos, seus preceitos e obrigações, seus fundamentos. Não adiantou lhe revelar o preço que pagara substituindo o abicun nos dois limites, aos sete e aos quatorze anos: no derradeiro, aos vinte e um, o preço era a morte. Adalgisa, espanhola, tinha outros compromissos, a coroa de espinhos, a cruz de Cristo, desprezava crendices e feitiçarias.

Não chegou a saber que Andreza às vésperas do aniversário fatal, para que a sentença ao se cumprir não fulminasse o abicun, propusera a Oyá a troca de cabeças: no dia da festa da maioridade da filha mais velha, amanhecera morta. Adalgisa não sabia o que fosse troca de cabeças e a palavra abicun nada lhe dizia." (Amado, 1988, p. 233.)

A partir da recusa de Adalgisa em aceitar o culto dos orixás, uma série de outros binômios, ou de outras dicotomias, põe em confronto, de um lado, os valores civilizacionais da Europa cristã e, do outro lado, os valores mestiços que se impõem ao povo baiano. Todo o livro de Jorge Amado é uma exaltação à cultura popular, suas crenças, seus mistérios, e é também uma divertida sátira à gente bem-nascida do lugar. Neste sentido, O sumiço da santa se estrutura como uma síntese criativa do próprio universo ficcional amadiano, onde a dicotomia de valores que desemboca na demolição do eurocentrismo é o tema recorrente. Característica das suas últimas obras, a síntese do universo ficcional construído, O sumiço da santa segue o mesmo rastrear operado por Tocaia grande, embora a oposição rural versus urbano trace a linha divisória entre estes dois romances e duas grandes vertentes da obra amadiana.

Ao contar os feitos da gente do povo, especialmente do negro, Amado é generoso e pródigo em exaltação. O dominado, quer pelas antigas leis da escravidão, quer pelas modernas leis do liberalismo econômico, é herói incondicional, numa inversão violenta da perspectiva da tradição literária. Sabemos que a literatura, durante sua longa história, até o realismo, marcado pelo determinismo reducionista, tratou as camadas submetidas às condições humilhantes de vida como personagens moralmente tão miseráveis quanto sua própria condição material. Somente um novo realismo, inaugurado no Brasil com o romance de 30, foi capaz de redesenhar a caricatura do homem do povo de modo a despertar maior solidariedade.

Como na velha Cidade da Bahia o homem do povo se confunde com o negro e o mestiço, este, com suas crenças, seus valores, sua cultura portanto, é o herói permanente da gesta amadiana. Embora mudando o tom do seu discurso, abandonando as sentenças partidárias dos primeiros romances, Jorge Amado não abandonou a sua crença na redenção do homem sofrido.

Toda alegoria do texto amadiano tem uma só e redundante finalidade: afirmar os valores dos vencidos e sua olvidada condição de vencedores. Mas o ódio, o ressentimento, é um fantasma que não tem lugar na obra da maturidade amadiana. A conciliação, a fusão e o entendimento são a pedra de toque da construção da sua república, do seu universo ficcional. Estes elementos desembocam num outro: o sincretismo. No realismo fantástico de Jorge Amado a imagem de Santa Bárbara se confunde com Yansã, negra sensual que abandona o andor e sai caminhando pelos becos e ladeiras da Bahia.

Enquanto a santa católica é apenas uma imagem inerte, objeto de veneração, o orixá é uma criatura viva que participa das virtudes e das fraquezas da sua gente. Assim, Santa Bárbara se torna forte, quando encarna Oyá, a Yansã das tempestades dos homens.

Se o seu discurso de hoje encanta e seduz o despreocupado e bem nascido burguês, a que quase todos aspiram ser; se ele quer divertir e alegrar; seus livros são também um palimpsesto, onde por vezes brotam as palavras sob as palavras. Raspada a tinta da escrita fácil e divertida, pelo leitor atento na busca do que se esconde por sob as cores luminosas, surge o cerne da sua alegoria, como a moral da fábula.

É esta escrita escondida e, às vezes, quase apagada que me encanta na obra amadiana. Uma obra que possibilita a cada um de nós o encontro das raízes da sua própria formação, seu próprio caráter, o caráter do homem do lugar, do baiano, místico e manhoso como as histórias de encantado do velho e amado romancista.


NOTAS

AMADO, Jorge: O sumiço da santa: uma história de feitiçaria. Rio de Janeiro, Record, 1988.

LOBATO, Monteiro: Crítica. In: AMADO, Jorge: Tieta do Agreste. Rio de Janeiro, Record, 1977.

PENA FILHO, Carlos: Livro geral; poesia. Recife, Universidade Federal de Pernambuco, 1969.

ROSA, João Guimarães. Literatura deve ser vida. Um diálogo de Günter W. Lorenz com João Guimarães Rosa. In: Exposição do novo livro alemão. Frankfurt am Main, Ausstellungs und Messe-GmbH des Börsenvereins des Deustschen Buchhandels, 1971.


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"O sumiço da santa: síntese do romance urbano de Jorge Amado" foi apresentado originalmente como "A demolição do eurocentrismo em Jorge Amado". In: I Simpósio Internacional de Estudos Sobre Jorge Amado. Um Grapiuna no País do Carnaval, 1992, Salvador. Um Grapiuna no País do Carnaval. Salvador : Fundação Casa de Jorge Amado, 1992. p. 124-129.